segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

moça na janela






















Cícero Dias, sem data, serigrafia da coleção de arte do Banco Central do Brasil.
Eran ayer mis dolores
como gusanos de seda
que iban labrando capullos;
hoy son mariposas negras.

¡De cuántas flores amargas
he sacado blanca cera!
¡Oh, tiempo en que mis pesares
trabajaban como abejas!

(...)

Dolores que ayer hicieron
de mi corazón colmena,
hoy tratan mi corazón
como a una muralla vieja:
quieren derribarlo, y pronto,
al golpe de la piqueta.

Antonio Machado.

beirais sem ninhos

Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!



Florbela.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Amor sacro, amor profano

Um Ticiano, de 1515, na Galeria Borghese.

Brisa nova com perfume antigo...

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Love´s riddles are...

Lovers' Infiniteness

If yet I have not all thy love,
Dear, I shall never have it all;
I cannot breathe one other sigh, to move,
Nor can intreat one other tear to fall;
And all my treasure, which should purchase thee—
Sighs, tears, and oaths, and letters—I have spent.
Yet no more can be due to me,
Than at the bargain made was meant;
If then thy gift of love were partial,
That some to me, some should to others fall,
         Dear, I shall never have thee all.


Or if then thou gavest me all,
All was but all, which thou hadst then;
But if in thy heart, since, there be or shall
New love created be, by other men,
Which have their stocks entire, and can in tears,
In sighs, in oaths, and letters, outbid me,
This new love may beget new fears,
For this love was not vow'd by thee.
And yet it was, thy gift being general;
The ground, thy heart, is mine; whatever shall
         Grow there, dear, I should have it all.


Yet I would not have all yet,
He that hath all can have no more;
And since my love doth every day admit
New growth, thou shouldst have new rewards in store;
Thou canst not every day give me thy heart,
If thou canst give it, then thou never gavest it;
Love's riddles are, that though thy heart depart,
It stays at home, and thou with losing savest it;
But we will have a way more liberal,
Than changing hearts, to join them; so we shall
         Be one, and one another's all. 
John Donne

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

La patte, 1949


ilustração de René Gruau.

Le baiser, 1935

  
Man Ray

os meus olhos ficam sorrindo


Meu coração, não sei porque
Bate feliz, quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim, foges de mim

Ah! Se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E muito e muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor
Dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz, bem feliz.

Pixinguinha e João de Barro.

Recordações

(...)
Até onde a gente chegar
Numa praça ou
Na beira do mar,
pedaço de qualquer lugar...
(...)

Geraldinho.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

I wear you tightly as I burn – don't make me come back

What the water gave me

This is how it is at the end –
me lying in my bath
while the waters break,
my skin glistening with amnion,
streaks of starlight.
And the waters keep on breaking
as I reverse out of my body.
My life dances on the silver surface
where cacti flower.
The ceiling opens
and I float up on fire.
Rain pierces me like thorns. I have a steam veil.
I sit bolt upright as the sun's rays embrace me.
Water, you are a lace wedding-gown
I slip over my head, giving birth to my death.
I wear you tightly as I burn –
don't make me come back.

Pascale Petit.

Nota: Petit nasceu na França, vive em Londres e é finalista do TS Eliot Prize for poetry.

Water. Frida Kahlo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

hora em que se o mundo acabar eu nem vejo

Bilhete da ousada donzela

Jonathan,
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
- comprada no Bazar Marrocos -
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de idéia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva - mesmo se estiver chovendo -
Não agüento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
"Não paro de pensar em você."
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar eu nem vejo.

Com aflição,
Antônia.

Adélia Prado.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.

Tempo

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.

Adélia Prado.

sábado, 8 de janeiro de 2011

My joys low-ebbing when you do depart



A sonnet of the moon



 



Look how the pale queen of the silent night



Doth cause the ocean to attend upon her,



And he, as long as she is in his sight,



With her full tide is ready her to honor.



 



But when the silver waggon of the moon



Is mounted up so high he cannot follow,



The sea calls home his crystal waves to moan,



And with low ebb doth manifest his sorrow.



 



So you that are the sovereign of my heart



Have all my joys attending on your will;



My joys low-ebbing when you do depart,



 



When you return their tide my heart doth fill.

So as you come and as you do depart,
Joys ebb and flow within my tender heart.

Charles Best (1570-1627).

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

no sé cómo ni sé con qué pretexto

Táctica y estrategia

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple

mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

Mario Benedetti.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

The sun itself sees not till heaven clears


O me, what eyes hath Love put in my head,
Which have no correspondence with true sight!
Or, if they have, where is my judgment fled,
That censures falsely what they see aright?

If that be fair whereon my false eyes dote,
What means the world to say it is not so?
If it be not, then love doth well denote
Love's eye is not so true as all men's 'No.'

How can it? O, how can Love's eye be true,
That is so vex'd with watching and with tears?
No marvel then, though I mistake my view;
The sun itself sees not till heaven clears.
O cunning Love! with tears thou keep'st me blind,
Lest eyes well-seeing thy foul faults should find.

W. Shakespeare. Sonnet 148.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

o que vulgarmente se chama amor

"(...) E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto, que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando ofendeu, em rigor não é delinqüente. Quem ignorando amou, em rigor não é amante."

Padre Antônio Vieira, apud Inês Pedrosa.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

o primeiro rendido é o entendimento

"(...) Tudo conquista o amor quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor."

Padre Antônio Vieira, apud Inês Pedrosa.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Clara

"Não, não vês, como eu não via. Pertencer a um país que de antigo se tornou velho também não ajuda a ver. Só através dos olhos desse António que veio do Brasil eu comecei a ver. Nos olhos dele aprendi a ler Vieira, como no seu corpo aprendi a saborear o desejo infinito, o desejo como experiência da eternidade. Para essa experiência não tenho palavras. Nem sequer silêncio. Dessa experiência sobrou-me o que sou."

Inês Pedrosa, A eternidade e o desejo.

sábado, 1 de janeiro de 2011

um rio de murmúrios da memória

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia :
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”,
Mas eu, como sempre perdido,
Bêbado de sambas e tantos sonhos,
Choro a lágrima comum,
Que todos choram,
Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores.
Meu choro, Boca,
Dolente, por questão de estilo,
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude,
De um samba nunca terminado,
Um rio de murmúrios da memória,
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras,
Que ninguém é de pedra.
(...)

Paulinho da Viola, Bebadosamba.