Com minhas próprias mãos abro esta porta
Que dá para o jardim do esquecimento,
onde vejo a cisterna e vejo a horta
De água e fruto inválidos. Movimento
De asas infinitas os ares corta,
E fecha o meu aberto pensamento
No ponto essencial da linha torta,
Que do ser é limite e acabamento.
Com minhas próprias mãos cultivo a terra
Da morte: a terra ex-terra, a finis terra,
E o adubo da Imemória manuseio.
O gesto de lançar uma semente
É como um gesto de adeus; só e ausente,
Neste jardim, eu próprio me semeio.
Joaquim Cardozo, De uma noite de festa (1971, pp. 133,134).