quinta-feira, 31 de maio de 2012

Reggio

CREPUSCULE


  I will wade out
                 till my thighs are steeped in burn-
  ing flowers
  I will take the sun in my mouth
  and leap into the ripe air
                             Alive
                                   with closed eyes
  to dash against darkness
                           in the sleeping curves of my
  body
  Shall enter fingers of smooth mastery
  with chasteness of sea-girls
                               Will I complete the mystery
  of my flesh
  I will rise
              After a thousand years
  lipping
  flowers
          And set my teeth in the silver of the moon
 
e.e.cummings 



Al Pacino at Cafe Reggio, 1989.

your slightest look easily will unclose me

somewhere i have never travelled, gladly beyond  
by E. E. Cummings
somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

terça-feira, 29 de maio de 2012

It is the star to every wandering bark

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:

O no! it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.

Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come:
Love alters not with his brief hours and weeks,

But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.


Shakespeare

(O amor, essa estrela para todo barco errante)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Quando Jacó encontra Raquel


 Sebastiano Conca, Jacob and Rachel at the Well

Jacó e Raquel no poço, de Sebastiano Conca (1676-1764).






(...) What a delightful face! Who could describe its magic? Who can explain the interplay of the sweet, happy features out of which life, by drawing here and there upon heredity and adding unique touches, creates the grace of a human countenance - the charm that sits on the razor´s edge, that, one might say, always hangs by a thread, (...)

Thomas Mann. Joseph and his brothers. The stories of Jacob. The flight.

domingo, 27 de maio de 2012

Raquel

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Camões

[Quem Sabe um Dia]


Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mario Quintana

sexta-feira, 25 de maio de 2012

"...em um instante se nasce, e se morre em um instante, um instante é bastante para a vida inteira."...

Clarice Lispector, A maçã no escuro.

Nu


Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

Manuel Bandeira

quinta-feira, 24 de maio de 2012

- Sonetto LXXXII -

Quando 'l gran lume appar nell'oriente,
che 'l negro manto della notte sgombra,
e dalla terra il gelo e la fredd'ombra
dissolve e scaccia col suo raggio ardente:

de' primi affanni, ch' avea dolcemente
il sonno mitigati, allor m' ingombra,
ond' ogni mio piacer dispiega in ombra,
quando da ciascun lato ha l'altre spente.

Così mi sforza la nimica sorte
le tenebre cercar, fuggir la luce,
odiar la vita e desiar la morte.

Quel che gli altri occhi appanna a' miei riluce,
perché, chiudendo lor, s' apron le porte
alla cagion ch' al mio sol mi conduce.
 
Vittoria Colonna (1490-1547)
retratada por Sebastiano del Piombo


versão livre

Soneto LXXXII

Quando o grande fogo aparece no Oriente,
e cai o negro manto da noite,
e da terra o gelo e a fria sombra
dissolve com o seu raio ardente:

as inquietações, que o sono havia
docemente mitigado, perturbam então
e cada prazer meu se transforma em escuridão,
e por toda parte tudo se apaga


Assim me obriga a inimiga sorte
a buscar as trevas, fugir à luz,
odiar a vida e desejar a morte


Aquilo que aos outros olhos mancha, aos meus reluz,
porque, fechando-os, se abrem as portas
à causa que ao meu sol me conduz.

Hino à beleza

Tu contiens dans ton œil le couchant et l'aurore ;
    Tu répands des parfums comme un soir orageux ;
    Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
    Qui font le héros lâche et l'enfant courageux. 


Conténs em teus olhos o poente e a aurora;
   Espalhas perfumes como uma noite de tempestade;
   Teus beijos são um filtro e tua boca uma ânfora
   que deixam lasso o herói e corajosa a criança. 


Baudelaire, Hino à beleza em As flores do mal.

Os paraísos artificiais


Le haschisch s'étend alors sur toute la vie comme un vernis magique ; il la colore en solennité et en éclaire toute la profondeur. Paysages dentelés, horizons fuyants, perspectives de villes blanchies par la lividité cadavéreuse de l'orage, ou illuminées par les ardeurs concentrées des soleils couchants...

O haxixe se estende então por toda a vida como um verniz mágico, ele a colore solenemente e lança luz sobre todas as profundezas. Paisagens recortadas, horizontes fugidios, perspectivas de cidades embranquecidas pela lividez cadavérica das tempestades, ou iluminadas pelos ardores concentrados dos sóis que se põem... 



Baudelaire sob o efeito do haxixe, por ele mesmo (1844).


Baudelaire, Les paradis artificiels.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

para que leda me leia
precisa papel de seda
       precisa pedra e areia
para que leia me leda

       precisa lenda e certeza
precisa ser e sereia
       para que apenas me veja

       pena que seja leda
quem quer você que me leia

[do livro Distraídos Venceremos]

Leminski.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Hai Kai

O ideograma de kawa, "rio", em japonês, pictograma de um fluxo de água corrente, sempre me pareceu representar (na vertical) o esquema do haikai, o sangue dos três versos escorrendo na parede da página..
HAI

       Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
       o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
       ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
       eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

KAI

       Mínimo templo
para um deus pequeno,
       aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
       meu extremo anjo de vanguarda.

       De que máscara
se gaba sua lástima,
       de que vaga
se vangloria sua história,
       saiba quem saiba.

       A mim me basta
a sombra que se deixa,
       o corpo que se afasta.

[do livro Distraídos Venceremos]

Leminski.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

"Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte."

Guimarães Rosa.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

must have been changed

'Who are you?' said the Caterpillar.
This was not an encouraging opening for a conversation. Alice replied, rather shyly, 'I-I hardly know, sir, just at present - at least I know who I was when I got up this morning, but I think I must have been changed several times since then'.

Lewis Carroll, Alice´s adventures in wonderland.

Portugal cheira bem

Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estação muito socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes―e outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido, de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam agoados.

Sacudi violentamente Jacintho:

―Acorda, homem, que estás na tua terra!

Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

―Então é Portugal, hein?... Cheira bem. 


Eça de Queiroz, A cidade e as serras (1901). Passagem do gosto do meu saudoso e querido avô.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto

Paulo Leminski (1944-1989)

A cidade

―Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa!

Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras (1901).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Frígida

José Joaquim Cesário Verde 
(1855-1886)

I

Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!
Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

II

Admiro-a. A sua longa e placida estatura
Expõe a magestade austera dos invernos.
Não cora no seu todo a timida candura;
Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

III

Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!...
Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

IV

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

V

Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
Ó gelida mulher bizarramente estranha,
E tremulo depor os labios no seu pulso,
Entre a macia luva e o punho de bretanha!...

VI

Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
Pausadamente lembra o silvo das giboias
E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

VII

Metallica visão que Charles Baudelaire
Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,
As curvas de magreza e o lustre dos adornos! 
 
VIII

Deslise como um astro, uma astro que declina;
Tão descançada e firme é que me desvaria,
E tem a lentidão d'uma corveta fina
Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
O socegado espectro angelico da Morte!

X

O seu vagar occulta uma elasticidade
Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
E a sua glacial impassibilidade
Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

XI

Porem, não arderei aos seus contactos frios,
E não me enroscará nos serpentinos braços:
Receio supportar febrões e calefrios;
Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

XII

E se uma vez me abrisse o collo transparente,
E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

terça-feira, 15 de maio de 2012

espero encontrar piedade, se não perdão

Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono
di quei sospiri ond'io nudriva 'l core
in sul mio primo giovenile errore,
quand'era in parte altr'uom da quel ch' i' sono,

del vario stile in ch'io piango e ragiono,
fra le vane speranze e 'l van dolore,
ove sia chi per prova intenda amore,
spero trovar pietà, non che perdono.

Ma ben veggio or sí come al popol tutto
favola fui gran tempo, onde sovente
di me mesdesmo meco mi vergogno;

e del mio vaneggiar vergogna è 'l frutto,
e 'l pentersi, e 'l conoscer chiaramente
che quanto piace al mondo è breve sogno.

e da minha vaidade a vergonha é o fruto,
e o arrependimento, e o conhecer claramente
que tudo que agrada ao mundo é sonho breve.

Petrarca

Soul

The village seems strange; this is separation as if my beloved has left it.
The grief of separation is so cruel that it is not scared of anyone;
When the soul does not leave the body it shakes.
Like a flower withering in the autumn,
Autumn has now come to my love.
I remain alone with my shaggy head of hair
Uncomprehending; my heart has been sad for a long time.
In a flash, it put a hole in my entire world;
Each affair is like an arrow.
Oh Faqir! Better be sad.
Who told you that love is easy?

 Shahzeb Faqir (23 December 2007)

Em artigo no The Guardian sobre o livro Poetry Of The Taliban, Hurst & Company, 2012.

Invective contra medicum

De Petrarca, em sua "Invectiva contra os médicos":

Obsequium amicos, veritas odium parit.

ou seja,

com a licença dos amigos, a verdade dá luz ao ódio.

Lá no Água Grande

(...)

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.

As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...

(...)

Alda do Espírito Santo, poetisa da ilha de São Tomé, em Humboldt, 5, 1962.

Terra Longe

Aqui, perdido, distante
Das realidades que apenas sonhei,
Cansado pela febre do mais-além,
Suponho
Minha Mãe a embalar-me,
Eu, pequenino, zangado pelo sono que não vinha.

(...)

Pedro Corsino Azevedo, poeta das ilhas do Cabo Verde, em Humboldt, 5, 1962.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

O gosto pelo infinito

O juste, subtil et puissant opium! Toi qui, au coeur du pauvre comme du riche, pour les blessures qui ne se cicatriseront jamais et pour  les angoisses qui induisent l'esprit en rébellion, apportes un baume adoucissante (...)

Oh justo, sutil e possante ópio! Tu que, no coracão do pobre como no do rico, para as feridas que não cicatrizarão jamais e para as angústias que induzem o espírito em rebelião, és um bálsamo doce (...)

(...) c'est pourquoi, ne considérant que la volupté immédiate, il a, sans s'inquiéter de violer les lois de sa constitution, cherché dans la science physique, dans la pharmaceutique, dans les plus grossières liqueurs, dans les parfums les plus subtils, sous tous les climats et dans tous les temps, les moyens de fuir, ne fût-ce que pour quelques heures, son habitacle de fange, et, comme dit l'auteur de Lazare: "d'emporter le Paradis d´un seul coup" Hélas! les vices de l'homme, si pleins d'horreur qu'on les suppose, contiennent les preuves (quand ce ne serait que leur infinie expansion!) de son goût de l'infini (...)


Baudelaire. Les paradis artificiels.

Les Nuages

Les nuages frôlent
Falaises et crêtes
Courtisent les vallées
Tracent sur plan d’azur
De brèves et blanches écritures
Détissées par le temps

Face aux montagnes
Qui surplombent nos saisons passagères
Nous sommes ces nuages
Entre gouffres et sommet.


Chedid

sábado, 12 de maio de 2012

Voz

Com minhas próprias mãos abro esta porta
Que dá para o jardim do esquecimento,
onde vejo a cisterna e vejo a horta
De água e fruto inválidos. Movimento

De asas infinitas os ares corta,
E fecha o meu aberto pensamento
No ponto essencial da linha torta,
Que do ser é limite e acabamento.

Com minhas próprias mãos cultivo a terra
Da morte: a terra ex-terra, a finis terra,
E o adubo da Imemória manuseio.

O gesto de lançar uma semente
É como um gesto de adeus; só e ausente,
Neste jardim, eu próprio me semeio.

Joaquim Cardozo, De uma noite de festa (1971, pp. 133,134).

É onde o seu lugar?

Da minha janela
A cidade alaranjada
Outro dia
outro dia vi chegar

Na janela, o sol,
Os automóveis pela rua
Tudo está no seu lugar
É onde o seu lugar?

Villeroy

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Jardins do século dezoito antes de 89

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A passagem das horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

(segue)

 Esse poema de Álvaro de Campos/Pessoa foi referido por um caro e saudoso amigo, hoje. Que saudades.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Memory


 O poema de Walter Savage Landor (1775 – 1864) tem um sabor especial, antigo e contemporâneo. Gostei de ler que a aclamação crítica que ele recebeu "from contemporary poets and reviewers was not matched by public popularity".
 

The mother of the Muses, we are taught,
Is Memory: she has left me; they remain,
And shake my shoulder, urging me to sing
About the summer days, my loves of old.
Alas! alas!
is all I can reply.
Memory has left with me that name alone,
Harmonious name, which other bards may sing,
But her bright image in my darkest hour
Comes back, in vain comes back, called or uncalled.
Forgotten are the names of visitors
Ready to press my hand but yesterday;
Forgotten are the names of earlier friends
Whose genial converse and glad countenance
Are fresh as ever to mine ear and eye;
To these, when I have written, and besought
Remembrance of me, the word Dear alone
Hangs on the upper verge, and waits in vain.
A blessing wert thou, O oblivion,
If thy stream carried only weeds away,
But vernal and autumnal flowers alike
It hurries down to wither on the strand.

terça-feira, 8 de maio de 2012

To Earthward

Love at the lips was touch
As sweet as I could bear;
And once that seemed too much;
I lived on air

That crossed me from sweet things
The flow of--was it musk
From hidden grapevine springs
Down hill at dusk?

I had the swirl and ache
From sprays of honeysuckle
That when they're gathered shake
Dew on the knuckle.

I craved strong sweets, but those
Seemed strong when I was young;
The petal of the rose
It was that stung.

Now no joy but lacks salt
That is not dashed with pain
And weariness and fault;
I crave the stain

Of tears, the aftermark
Of almost too much love,
The sweet of bitter bark
And burning clove.

When stiff and sore and scarred
I take away my hand
From leaning on it hard
In grass and sand,

The hurt is not enough.
I long for weight and strength
To feel the earth as rough
To all my length.

Robert Frost

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Fire and Ice

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice. 


Robert Frost.

domingo, 6 de maio de 2012

The road not taken (R. Frost, 1920)

TWO roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;        5
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,        10
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.        15
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ithaka

As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.

Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

C.P. Cavafy
"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida. "
Drummond