sexta-feira, 18 de maio de 2012

Portugal cheira bem

Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estação muito socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes―e outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido, de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam agoados.

Sacudi violentamente Jacintho:

―Acorda, homem, que estás na tua terra!

Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

―Então é Portugal, hein?... Cheira bem. 


Eça de Queiroz, A cidade e as serras (1901). Passagem do gosto do meu saudoso e querido avô.

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