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domingo, 27 de janeiro de 2013

Metempsicose


Ardentes fihas do prazer, dizei-me!
Vossos sonhos quais são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
do que fostes, em vós se agita e freme?

Noutra vida e outra esfera, onde geme
outro vento, e se acende um outro dia,
que corpo tínheis? Que matéria fria
vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
arrastando, leoas ou panteras,
de dentadas d'amor um corpo exangue...

Mordei pois esta carne palpitante,
feras feitas de gaze flutuante...
Lobas! Leoas! sim, bebei meu sangue!

Antero de Quental



sábado, 26 de janeiro de 2013

Intimidade


Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobiçosa,
És bela - e se te nao comparo à rosa,
É que a rosa, bem vês, passou de moda...

Anda-me as vezes a cabeça a roda,
Atrás de ti também, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidão ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.

Mas é na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!

E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
 - mentindo - que me tens amor...

Antero de Quental