quinta-feira, 26 de julho de 2012

As penas

Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto...
Sabe-o Deus e sei-o eu

(Fernando Caldeira)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Antes eu sonhava,
agora nem durmo.

pára-choque de caminhão, na L2 Norte, Brasília, numa manhã de sol.
(trecho de "Há tempos", do Legião Urbana).

A suposta existência

(...)

Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.

A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.

Carlos Drummond de Andrade.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Viagem

Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.

Helena Kolody (1912-2004).

 

Confronto

Bateu Amor à porte da Loucura.
"Deixe-me entrar, pediu, sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu a paixão."

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto o Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu.

Enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de Amor."

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 2 de julho de 2012

“Therefore, dear Sir, love your solitude and try to sing out with the pain it causes you. For those who are near you are far away... and this shows that the space around you is beginning to grow vast.... be happy about your growth, in which of course you can't take anyone with you, and be gentle with those who stay behind; be confident and calm in front of them and don't torment them with your doubts and don't frighten them with your faith or joy, which they wouldn't be able to comprehend. Seek out some simple and true feeling of what you have in common with them, which doesn't necessarily have to alter when you yourself change again and again; when you see them, love life in a form that is not your own and be indulgent toward those who are growing old, who are afraid of the aloneness that you trust.... and don't expect any understanding; but believe in a love that is being stored up for you like an inheritance, and have faith that in this love there is a strength and a blessing so large that you can travel as far as you wish without having to step outside it.”
― Rainer Maria RilkeLetters to a Young Poet

domingo, 1 de julho de 2012

O homem, o rio e o horizonte

A vida segue seu curso.
Nem a favor nem contra, senão, indiferente e inexorável.
Sem explicação.
E o homem é parte e não todo. É consciência solitária...
Ainda assim, parte.
E teima.  E trabalha. E ora.  E sofre. E clama. E chora.
Revolta-se! 
Herege ou resignado... Morre.
A vida segue seu curso.
Sou um expectador indiferente a tudo.
Sento e olho o curso do Tejo ao horizonte.
Nada além disso.
Sou imune a isso e àquilo.
Se imunidade não é resignação ou heresia...
É Morte!
A vida segue seu curso.
E eu - vivo ou morto - olho o horizonte junto ao rio.

Luciano Marinho.