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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Portugal cheira bem

Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estação muito socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes―e outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flôr que rescendiam. Um moço pallido, de paletot côr de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente á grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam agoados.

Sacudi violentamente Jacintho:

―Acorda, homem, que estás na tua terra!

Elle desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

―Então é Portugal, hein?... Cheira bem. 


Eça de Queiroz, A cidade e as serras (1901). Passagem do gosto do meu saudoso e querido avô.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A cidade

―Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa!

Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras (1901).