Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia :
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”,
Mas eu, como sempre perdido,
Bêbado de sambas e tantos sonhos,
Choro a lágrima comum,
Que todos choram,
Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores.
Meu choro, Boca,
Dolente, por questão de estilo,
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude,
De um samba nunca terminado,
Um rio de murmúrios da memória,
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras,
Que ninguém é de pedra.
(...)
Paulinho da Viola, Bebadosamba.