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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Domingo no Recife

O número encarnado no calendário,
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.

Domingo urbano colorido de acácias
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
Ó pedra tumular do banco do jardim público.

Dia nítido levado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife
o rio criança nos seus braços maternos
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio para menores,
do circo, do clarinete de "seu" Miguel.

Domingo colonial imutável no bairro de São José
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas de dois séculos.

Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no Pátio de São Pedro.

Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.

Mauro Mota