O número encarnado no calendário,
retalho do vestido esvoaçante
na
tarde de regata, derradeira
mancha de sangue
o corpo recomposto
nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.
Domingo urbano
colorido de acácias
que acharam nesta floração apenas
as sombras
dos antigos namorados
Ó pedra tumular do banco do jardim público.
Dia nítido levado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife
o rio
criança nos seus braços maternos
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio
para menores,
do circo, do clarinete de "seu" Miguel.
Domingo
colonial imutável no bairro de São José
Vêm da igreja a música do
órgão e as vozes femininas de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o
espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no Pátio de São Pedro.
Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas
somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos
dos retratos.
Mauro Mota