Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.
Carlos Pena Filho.
Há um fado com esse poema...
sábado, 30 de junho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Schopenhauer
Para cada sonho uma lápide
sóbria como o próprio cortejo,
depois disso, treinar seu cão
para morder qualquer desejo;
rasgada a farda da alegria
que, na batalha, o distraía,
agora a dor, em tempo célere,
pode estender, com dignidade,
sua cólera à flor da pele,
para sarjar com sua lança
tantos tumores da esperança.
Alberto da Cunha Melo.
sóbria como o próprio cortejo,
depois disso, treinar seu cão
para morder qualquer desejo;
rasgada a farda da alegria
que, na batalha, o distraía,
agora a dor, em tempo célere,
pode estender, com dignidade,
sua cólera à flor da pele,
para sarjar com sua lança
tantos tumores da esperança.
Alberto da Cunha Melo.
Quantos poemas podem levar às lágrimas?
Le dormeur du val
C'est un trou de verdure où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent;
où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant [comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement: il a froid.
Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine
Tranquille.
Il a deux trous rouges au côté droit.
O
Adormecido do vale
Era um
recanto onde um regato canta
Doidamente
a enredar nas ervas seus pendões
De
prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha:
um pequeno vale a espumejar clarões.
Jovem
soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a
refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme;
estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco
em seu leito verde onde chovia luz.
Os pés
nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma
criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem
frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.
Os
perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme
ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre
o corpo. E tem dois furos rubros no peito.
RIMBAUD,
Arthur. Poesia completa. Edição bilingue. Tradução de Ivo Barroso. Rio de
Janeiro: Topbooks, 1995.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Uma aranha
ela surgiu não sei de onde
quando abri o Dicionário de Filosofia
de José Ferrater Mora
no verbete Descartes, René;) mi-
núscula
com suas muitas perninhas
quase invisíveis
cruzou a página 1305 como se flutuasse
(uma esfera de ar
viva)
e foi postar-se no alto
no limite entre o texto e a margem branca
enquanto eu
fascinado
indagava:
como pode residir
insuspeitado
nestas encardidas páginas
– em minha casa, afinal de contas –
um tal ser
mínimo mas vivo
consciente de si
(e como eu
parte do século XXI)
e que agora parece observar-me
tão espantado quanto estou
com este nosso inesperado encontro?
Ferreira Gullar.
(este poema é a cara de Dona Diva)
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Soneto da porta
Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.
Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.
Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,
sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.
Ledo Ivo, no blog do Antonio Cícero.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.
Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.
Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,
sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.
Ledo Ivo, no blog do Antonio Cícero.
MINOS
Não ocultei o monstro: Jamais hei de ocultá-lo.
Jamais erguerei paredes para vedá-lo às vistas dos curiosos e maledicentes. Jamais hei de exilá-lo.
Ao contrário:
Plantei-o no trono do salão
central do palácio que ergui para abrigá-lo, na capital do meu reino, no
umbigo desta ilha que eu mesmo tornei eixo do mundo.
Que para ele convirjam todos os
turistas, todas as rotas marinhas, todas as linhas aéreas, todos os
cabos submarinos, todas as redes siderais.
Construí canais estradas viadutos ferrovias funiculares pontes túneis até o palácio;
depois, áditos pórticos limiares entradas umbrais aléias ânditos elevadores passagens escadas ombreiras travessas portas corredores servidões rampas porteiras vielas passadouros escadarias portões arcadas soleiras portelas caminhos galerias sendas portais veredas cancelas áditos pórticos limiares entradas umbrais aléias ânditos elevadores passagens escadas ombreiras travessas portas corredores servidões rampas porteiras vielas passadouros escadarias portões arcadas soleiras portelas caminhos galerias sendas portais veredas cancelas áditos pórticos limiares entradas umbrais aléias ânditos elevadores passagens escadas ombreiras travessas portas corredores servidões rampas porteiras vielas passadouros escadarias portões arcadas soleiras portelas caminhos galerias sendas portais veredas cancelas alamedas áditos pórticos limiares entradas umbrais aléias ânditos elevadores passagens escadas ombreiras travessas portas corredores servidões rampas porteiras vielas passadouros escadarias travessas portões arcadas soleiras portelas caminhos galerias sendas portais veredas cancelas áditos pórticos limiares entradas umbrais aléias degraus portinholas ruelas ânditos elevadores passagens escadas ombreiras travessas portas corredores servidões rampas porteiras vielas passadouros escadarias portões arcadas soleiras portelas caminhos galerias sendas portais veredas cancelas alamedas áditos
Antonio Cicero, in http://antoniocicero.blogspot.com.br/
Inferno
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
Dante, La Divina Commedia.
Presságio
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa (1928)
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa (1928)
terça-feira, 26 de junho de 2012
Ela entrou como um pássaro no museu de memórias
E no mosaico em preto e branco pôs-se a brincar de dança.
Não soube se era um anjo, seus braços magros
Eram muito brancos para serem asas, mas voava.
Tinha cabelos inesquecíveis, assim como um nicho barroco
Onde repousasse uma face de santa de talha inacabada.
Seus olhos pesavam-lhe, mas não era modéstia
Era medo de ser amada; vinha de preto
A boca como uma marca do beijo na face pálida.
Reclinado; nem tive tempo de a achar bela, já a amava.
Vinicius de Moraes.
E no mosaico em preto e branco pôs-se a brincar de dança.
Não soube se era um anjo, seus braços magros
Eram muito brancos para serem asas, mas voava.
Tinha cabelos inesquecíveis, assim como um nicho barroco
Onde repousasse uma face de santa de talha inacabada.
Seus olhos pesavam-lhe, mas não era modéstia
Era medo de ser amada; vinha de preto
A boca como uma marca do beijo na face pálida.
Reclinado; nem tive tempo de a achar bela, já a amava.
Vinicius de Moraes.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Beleza do corpo da amiga
Amiga, teu corpo é como uma sombra quente
Onde eu me deito para mirar a água tranquila dos teus olhos
Amiga, teus olhos são como uma água tranquila
Que apenas se diluem quando eu colher em tua boca a flor úmida que passa
Trazendo em sua corola rubra o pistilo de sua língua em sangue.
Vinicius de Moraes.
Onde eu me deito para mirar a água tranquila dos teus olhos
Amiga, teus olhos são como uma água tranquila
Que apenas se diluem quando eu colher em tua boca a flor úmida que passa
Trazendo em sua corola rubra o pistilo de sua língua em sangue.
Vinicius de Moraes.
Noite de São João
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
Alberto Caieiro, alias Fernando Pessoa, in Poemas Inconjuntos.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.
Ricardo Reis, alias Fernando Pessoa, in Odes.
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.
Ricardo Reis, alias Fernando Pessoa, in Odes.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
mil deleites não vulgares
Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares
Formosos leitos, e elas mais formosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
De amor feridas, para lhes entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.
Camões, Os Lusíadas, canto IX, 41.
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares
Formosos leitos, e elas mais formosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
De amor feridas, para lhes entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.
Camões, Os Lusíadas, canto IX, 41.
She bid me take life easy
- Down by the salley gardens my love and I did meet;
- She passed the salley gardens with little snow-white feet.
- She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree;
- But I, being young and foolish, with her did not agree.
- In a field by the river my love and I did stand,
- And on my leaning shoulder she placed her snow-white hand.
- She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs;
- But I was young and foolish, and now am full of tears.
- W.B.Yeats.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Soneto do maior amor
Maior amor nem mais estranho existe
que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Vinicius de Moraes, Oxford, 1938. Poesia completa e prosa (1998), p. 150.
que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
Vinicius de Moraes, Oxford, 1938. Poesia completa e prosa (1998), p. 150.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
SONETO DO DESMANTELO AZUL
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
Carlos Pena Filho
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
domingo, 17 de junho de 2012
el arte de ver mi propia historia
¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?
Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.
En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto
otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.
Jorge Luis Borges
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?
Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.
En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto
otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.
Jorge Luis Borges
quarta-feira, 13 de junho de 2012
A Drinking Song
terça-feira, 12 de junho de 2012
nos cobrimos de beijos e de flores
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Se todos os teus dias fossem meus
Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa.
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst (1930-2004). Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio.
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa.
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst (1930-2004). Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio.
Sou o intervalo entre as duas notas
Minha vida não é essa hora abrupta
Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.
Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…
Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.
(...)
Rainer Maria Rilke.
sábado, 9 de junho de 2012
I Dinosauri
Tutti tranne me, perché anch'io, per certo periodo, sono stato dinosauro: diciamo per una cinquantina di milioni d'anni; e non me ne pento: allora essere dinosauro si aveva la coscienza d'essere nel giusto, e ci si faceva rispettare.
Poi la situazione cambiò, è inutile che vi racconti i particolari, cominciarono guai di tutti i generi, sconfitte, errori, dubbi, tradimenti, pestilenze. Una nuova popolazione cresceva sulla terra, nemica a noi. Ci davano adosso da tutte le parti, non ce ne andava bene una. Adesso qualcuno dice che il gusto di tramontare, la passione d'essere distrutti facessero parte dello spirito di noi Dinosauri già da prima. Non so: io questo sentimento no l'ho mai provato; se degli altri l´avevano, è perché già se sentivano perduti.
Italo Calvino. Le Cosmicomiche.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
amid a crowd of stars
- When you are old and grey and full of sleep,
- And nodding by the fire, take down this book,
- And slowly read, and dream of the soft look
- Your eyes had once, and of their shadows deep;
- How many loved your moments of glad grace,
- And loved your beauty with love false or true,
- But one man loved the pilgrim soul in you,
- And loved the sorrows of your changing face;
- And bending down beside the glowing bars,
- Murmur, a little sadly, how Love fled
- And paced upon the mountains overhead
- And hid his face amid a crowd of stars.
- W.B. Yeats
esse indistinto Abismo entre o meu sonho e o meu porvir
Passos da Cruz
(...) XII
Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
"Em longes terras hás de ser rainha"
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
"Em longes terras hás de ser rainha"
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
sábado, 2 de junho de 2012
Aqui falta saber, engenho, e arte
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos
delicados,
Brandas iras, suspiros
magoados,
Temerosa ousadia, e pena,
ausente.
Também, Senhora, do desprezo
honesto
De vossa vista branda e
rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a
menor parte.
Porém para cantar de vosso
gesto
A composição alta e
milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e
arte.
Camões
sexta-feira, 1 de junho de 2012
One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.
Elizabeth Bishop

kiss from a rose
did you know that when it snows
my eyes become large and the light that you shine can be seen?
seal.
seal.
Reggio Calabria
spring!may-
spring!may-
everywhere's here
(with a low high low
and the bird on the bough)
how?why
- we never we know
(so kiss me) shy sweet eargerly my
e.e.cummings
spring!may-
everywhere's here
(with a low high low
and the bird on the bough)
how?why
- we never we know
(so kiss me) shy sweet eargerly my
e.e.cummings
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