quinta-feira, 28 de junho de 2012

Uma aranha


ela surgiu não sei de onde
     quando abri o Dicionário de Filosofia
     de José Ferrater Mora
     no verbete Descartes, René;) mi-
núscula
     com suas muitas perninhas
     quase invisíveis
cruzou a página 1305 como se flutuasse
     (uma esfera de ar
     viva)
e foi postar-se no alto
no limite entre o texto e a margem branca
enquanto eu
                   fascinado
                   indagava:

como pode residir
                   insuspeitado
nestas encardidas páginas
– em minha casa, afinal de contas –
um tal ser
               mínimo mas vivo
               consciente de si
                                        (e como eu
                                        parte do século XXI)
e que agora parece observar-me
              tão espantado quanto estou
              com este nosso inesperado encontro?

Ferreira Gullar.

(este poema é a cara de Dona Diva)

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