segunda-feira, 4 de junho de 2012

esse indistinto Abismo entre o meu sonho e o meu porvir

Passos da Cruz

(...) XII 

Ela ia, tranquila pastorinha, 
Pela estrada da minha imperfeição. 
Segui-a, como um gesto de perdão, 
O seu rebanho, a saudade minha... 

"Em longes terras hás de ser rainha" 
Um dia lhe disseram, mas em vão... 
Seu vulto perde-se na escuridão... 
Só sua sombra ante meus pés caminha... 

Deus te dê lírios em vez desta hora, 
E em terras longe do que eu hoje sinto 
Serás, rainha não, mas só pastora 

Só sempre a mesma pastorinha a ir, 
E eu serei teu regresso, esse indistinto 
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

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