quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Paraguaçu

Paraguaçu gentil (tal nome teve)
bem diversa de gente tão nojosa;
De cor tão alva, como a branca neve;
E donde não é neve, era de rosa;
O nariz natural, boca mui breve,
Olhos de bela luz, testa espaçosa:
de algodão tudo o mais, com manto espesso,
quanto honesta encobriu, fez ver-lhe o preço.

xxx


Foi destinada de seus pais valentes,
esposa de Gupeva, mas a Dama
fugia de seus olhos impacientes,
nem prenda lhe aceitou, porque o não ama:
nada sabem de amor bárbaras gentes,
nem arde em peito rude a amante chama;
Gupeva, que não sente o seu despeito,
Tratava-a sem amor, mas com respeito.

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(Paraguaçu conhece Diogo para servir-lhe de intérprete)

xxx

(...) [Diogo]
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias, que nem na morte o tempo risca)
que houvera de perder-se naquela hora
Se não fora cristão, se herói não fora.

xxx

Desde hoje se a meus olhos corresponde
Ó meigo olhar das lúcidas pupilas;
se amor é...porque amor quem é que o esconde,
Se por ele essas lágrimas destilas:
com que chamas meu peito te responde,
com mão de esposa poderás senti-las;
Disse, e estendendo a mão, ofereceu-lha;
Ela que nada diz, sorriu-se, e deu-lha.

Põe-lhe de fuga os olhos que abaixara;
E ou de amante, ou também de vergonhosa,
Um tão belo rubor que tinge a cara,
Como quando entre os lírios nasce a rosa:
Três vezes quis falar, três vezes se calara;
e ficou do soçobro tão formosa,
Quanto ele ficou cego; e em tal porfia,
Nem um, nem outro então de si sabia.



Santa Rita Durão. Caramuru. Canto II.

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