quarta-feira, 27 de junho de 2012

Soneto da porta

Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.

Ledo Ivo, no blog do Antonio Cícero.

Um comentário:

  1. "Os morcegos se escondem entre as cornijas da alfândega. Mas onde se escondem os homens, que contudo voam a vida inteira no escuro chocando-se contra as paredes brancas do amor?"
    (também desse tal Ledo Ivo postado hj no blog Todesca)

    http://arqtodesca.blogspot.com.br/2012/06/os-morcegos-se-escondem-entre-as.html

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