segunda-feira, 18 de junho de 2012

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Carlos Pena Filho


Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.






Um comentário:

  1. "Porque o azul de um poema é como um sistema propulsor de vôo para os pássaros e borboletas". Assim penso a rara substância, cara seiva composta de matéria onírica, liberta e sugestionável que segue e infringe delicadamente as leis internas responsáveis pelo funcionamento de um poema. Azul é a cor de um poema por toda a amplitude sensorial que esta cor fere nas águas do olhar, caminhar de lagos que ela sugere ou mesmo signifique quando desavisados um céu no mar ela nos pisque e amplifique.

    Muitos escribas já investigaram alguns de seus porquês e dos porquês de escrever. Sinto uma proximidade, aceitável identificação com os que o fazem por razões especificamente fisiológicas, feito fosse o poema realmente uma necessidade corpórea, uma dessas urgências da epiderme em identificar e esmiuçar o que a atrita ou a afaga. Mas não penso o poema somente como uma carência a ser sanada de uma estrutura física, posto que os exercícios da mente em geral exigem muito mais atenção e acompanhamento clínico de uma poética. Assim, penso que escrever poderia muito bem ser um suor da alma, algo imprescindivelmente necessário ao bom funcionamento deste estranho e frágil mecanismo feito de ossos e carne pulsante que volta e meia não se conforma em ser apenas o que é e, merecida ou imerecidamente, sonha ir além.

    (texto de Thais Marino falando de Fernando Koproski)

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